O Preço da Projeção: Quando a Culpa Excede a Responsabilidade Pessoal
- Ana Olliveira
- há 3 dias
- 3 min de leitura
O término de um relacionamento é quase sempre um terreno fértil para a reavaliação e o ajuste de contas. É um momento onde ambos os indivíduos são confrontados com suas escolhas, seus sacrifícios e, inevitavelmente, seus erros. Contudo, em algumas narrativas pós-divórcio, um padrão doloroso e destrutivo emerge: a completa exclusão da responsabilidade pessoal e a projeção total da culpa no ex-parceiro.
Esse fenômeno é particularmente notável quando uma das partes, frequentemente a ex-mulher neste contexto, assume uma postura de vítima perpétua, atribuindo ao ex-marido não apenas o fracasso da união, mas também a estagnação e a insatisfação em sua vida atual, inclusive a falta de concretização de seus objetivos pessoais.
A Desculpa do Sacrifício: Cuidado com o Lar vs. Escolha Pessoal
Um dos argumentos mais comuns nesse cenário é a alegação de que a falta de progresso profissional ou pessoal deve-se exclusivamente ao tempo e energia dedicados ao cuidado da casa e da família. "Fiquei em casa cuidando de tudo, enquanto você seguia sua vida" é uma frase que encapsula essa perspectiva.
É inegável que a dedicação à família é um trabalho árduo e valioso que exige renúncias. No entanto, o ponto central aqui não é o reconhecimento desse esforço, mas sim a transformação desse sacrifício em um álibi permanente. Uma parceria adulta e funcional é construída em cima de escolhas mútuas e diálogos sobre prioridades. Se objetivos pessoais foram negligenciados, é crucial questionar:
Houve comunicação clara sobre a necessidade de tempo e apoio para esses objetivos?
A estagnação é resultado exclusivo da dedicação doméstica ou também da falta de vontade própria, iniciativa ou medo de buscar o novo?
Por que a responsabilidade pela falta de realização é exclusivamente do outro e não uma falha em renegociar, planejar ou agir?
Ao culpar o ex-marido, a pessoa evita o confronto mais difícil: a sua própria falta de ação e a necessidade de assumir as rédeas da vida agora. O cuidado com o lar, que foi uma escolha (ou um acordo), é retroativamente reclassificado como uma prisão imposta pelo parceiro, desviando o foco da necessidade de autonomia e proatividade no presente.
O Mecanismo de Projeção: O Inimigo Está Dentro
Do ponto de vista psicológico, essa postura é um clássico mecanismo de defesa conhecido como projeção. É muito menos doloroso culpar uma fonte externa (o ex-marido) do que admitir as próprias falhas, a falta de coragem ou a passividade.
Evitar a Autoavaliação: Se tudo é culpa dele, não há necessidade de olhar para si mesma, de reconhecer a pouca iniciativa, o rancor destrutivo ou a dificuldade em se reestruturar.
A Posição de Vítima: A vítima obtém simpatia e não é cobrada. Essa posição garante um conforto emocional temporário, pois isenta a pessoa de qualquer esforço de mudança.
O Obstáculo Imaginário: O ex-marido, mesmo ausente, torna-se um obstáculo conveniente para qualquer falha futura. "Não consegui o emprego porque ele me sugou a vida," é mais fácil de dizer do que "Não consegui o emprego porque não me preparei o suficiente."
A Única Saída: Assumir a Responsabilidade
Um artigo sobre este tema deve focar na urgência de quebrar esse ciclo. A verdadeira libertação não reside em provar que o ex-marido é culpado, mas em deixar de usá-lo como desculpa.
A vida após o divórcio exige que cada indivíduo se torne o único responsável por sua felicidade e sucesso. A pessoa que passa a vida olhando para o passado para culpar o outro está, na verdade, negando a si mesma o poder de construir um futuro melhor.
O ex-marido, com seus próprios erros e acertos, já é uma página virada. A ex-mulher, para alcançar seus objetivos, precisa finalmente abandonar o papel de espectadora de sua própria vida e parar de apontar o dedo. O único motor para a mudança é a vontade pessoal e o reconhecimento corajoso de que a responsabilidade pelo "correr atrás" é 100% sua. A chave para a realização pessoal não está na absolvição do passado, mas na ação focada no presente.



Comentários